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Uma aposta na modernidade

Laura Greenhalgh

Até onde vai a corrida tecnológica? Vai longe. Eu poderia dizer que estamos vivendo um momento de explosão de possibilidades. Atravessamos uma espécie de período cambriano na área tecnológica. O cambriano, tal como sabemos, remonta a 540 milhões de anos, quando a vida, esse fascinante complexo multicelular, apareceu no planeta e a partir daí tudo mudou. É mais ou menos o que se dá hoje, quando surgem máquinas novas e incontáveis vias de comunicação, tornando o espaço cibernético cada vez mais complexo, mais imprevisível e mais interessante.

Há um marco para o início dessa era cambriana tecnológica?

Isso se deu com a mudança daquela velha conhecida que surgiu com a televisão, a mass media, para a comunicação pessoal nascida com a web, ou seja, a personal media. Na era da comunicação de massa, a televisão trazia o mundo para dentro da nossa sala de visitas, porém apenas o contemplávamos na condição de espectadores. Agora, esse fascinante mundo da mídia pessoal não só vai aonde estamos como provoca em nós a sede de resposta e interação.

O que dizer dos objetos inteligentes que a indústria não pára de pesquisar e produzir?

A era cambriana também compreende a revolução do sensor. Tudo o que acionamos tem sensor: da máquina que recolhe o pedágio nas estradas às videocâmeras. Estamos colocando nossos olhos, ouvidos e demais sentidos em computadores e networks. O sensorial está por toda parte e assim vamos, dia a dia, adaptando o mundo a isso. Mas o grande salto está para acontecer.

Qual é?

Robótica. A próxima grande indústria, com força comparável ao boom dos computadores pessoais nos anos 80 e à revolução da internet nos 90, será a robótica. Assim como nos acostumamos a ver Steve Jobs (um dos fundadores da Apple) e Bill Gates (da Microsoft) nas capas de revista dos anos 80, ou Jeff Bezos (da Amazon) nas manchetes dos anos 90 e agora a dupla dos fundadores do Google, eu aposto que dentro de dez anos nossos heróis serão os construtores de robôs.

Baseado em que o senhor crava a aposta?

Robôs são o resultado da fusão sensor, computador e internet. E tudo sem fio. Digo mais: não serão robôs humanóides, como aqueles com os quais sonhamos por tanto tempo, e nem custarão muito. Bom indicador dessa tendência é o Roomba, do iRobot, um aspirador de pó que custa menos de US$ 200 e faz tudo sozinho. Sabe o que está acontecendo? Os felizes proprietários do Roomba estão tão encantados com o robô-aspirador que costumam batizá-lo com nome próprio e o carregam para viajar nas férias. Exagero? O mesmo está acontecendo na indústria de brinquedos. Os lançamentos mais descolados para 2006 são robôs para o público infantil.

Então, mais e mais vamos lidar com a inteligência rudimentar dos objetos... Estamos preparados para conviver com outras formas de inteligência?

A miríade de impasses no planeta sugere que não estamos preparados nem para conviver entre nós mesmos, o que dizer da possibilidade de convivência com formas artificiais de inteligência? Os robôs que estão ali na esquina, à nossa espera, definitivamente não são as máquinas dos filmes de ficção científica. A geração de robôs que entra no mercado é meio bobinha. Nós é que preferimos acreditar que são máquinas espertas, até porque estamos doidos para nos afeiçoar a elas. Agora vou fazer uma previsão: posso estar errado, mas a verdadeira inteligência sintética poderá aparecer nos próximos anos. Nós, que por tanto tempo procuramos vida inteligente em algum lugar do cosmos, talvez venhamos a deparar com a primeira inteligência não-humana, que poderá ser encontrada intencional ou acidentalmente. Trata-se de uma invenção devastadora, algo completamente antinatural e não-biológico, que supera em muito aquilo que entendemos por inteligência artificial. Anote isso. Se vier a acontecer, terá conseqüências imprevisíveis.

Estamos acompanhando o crescimento exponencial da web, que conecta um número sempre maior de pessoas. Ainda assim, saímos da era da comunicação de massa para a comunicação pessoal?

Exatamente. A grande diferença entre a mass media e a personal media é que esta última, por definição, é uma viagem de mão dupla. Uma espécie de bate-e-volta. É o sujeito que vota em pesquisa de opinião on-line e sente que decide o jogo. Ou aquela rede de protestos que se armou na internet e acabou derrubando o governo das Filipinas, tempos atrás. É o blogueiro que consegue furar um grande jornal ao denunciar um político corrupto. Ou aquela pessoa que compra e vende no eBay. Há uma disposição pessoal em todos esses movimentos. O conceito de mídia também mudou: o celular deixou de ser apenas o telefone móvel. Ele é um equipamento de mídia, através do qual você assiste a um vídeo, troca mensagens com amigos, busca orientação quando está perdido, ouve música, tira fotografia... e até telefona.

Até que ponto o acesso móvel e sem fio da web, que vem conquistando terreno rapidamente, mudará comportamentos?

Quando se fala em tecnologia, é importante frisar o seguinte: cada passo adiante que o usuário dá é uma revolução pessoal. A tecnologia wireless, do celular ao GPS, inovou de verdade. Nos anos 90, a web levou o espaço cibernético para a nossa mesa de trabalho. Hoje o espaço cibernético é que nos acompanha. Ele nos segue onde trabalhamos, vivemos e nos divertimos. Não é à toa que estamos crescentemente comprando, vendendo e trocando na rede. Cada vez mais deixamos de ser clientes para ser assinantes.

Como assim?

Não compramos celulares, assinamos um pacote de serviços. Já podemos assinar carros, em vez de comprá-los. A diferença entre o produto e o serviço tende a sumir.

Isso afeta o comércio eletrônico?

Mesmo que apareçam outros gigantes do comércio eletrônico, a regra principal não vai mudar: os grandes só existirão se estimularem os pequenos. O espaço cibernético vai continuar interessando o mundo dos negócios? Sim, cada vez mais. Porque nele não existe distância entre dois pontos. Ele desenha novas adjacências, que por sua vez criam oportunidades. Estou muito atento ao casamento entre geografia cibernética e geografia física, por exemplo. Essa junção permite que seu telefone receba ofertas de acordo com o lugar onde você se encontra. Por exemplo, você poderá descer a Bush Street, em San Francisco, Califórnia, e receber pelo celular o convite de um bar a metros da sua localização, oferecendo-lhe uma taça de vinho bordeaux como cortesia.

O senhor diz que a alma da personal media reside no desejo coletivo de ser ouvido. Que impacto isso tem sobre mídias convencionais, como jornais e revistas?

Esse é um grande tempo para ser jornalista e um tempo árduo para ser publisher. Porque uma variedade incrível de novas formas de fazer jornalismo já está levando um certo caos aos modelos editoriais conhecidos. Veja a situação do publisher: o negócio dele depende de um triângulo onde o jornalista escreve, o leitor lê e o anunciante paga a conta. Mas hoje o anunciante migra para outros ambientes, como ficou provado com a quantidade de classificados que deixaram publicações impressas para ir para o eBay e assemelhados. Muita gente também troca a leitura no papel pela leitura na tela. Agora, então, com a onda de blogs, a confusão está armada.

Mas o jeito de processar a informação é diferente num blog e num jornal impresso.

Não estou dizendo que jornais e revistas vão desaparecer. Mas vai ser dolorido o processo de adaptação aos novos tempos. Impressos vão sumir do mapa, outros, ficarão mais fortes. Não tenho dúvida de que os impressos que sobreviverem terão de descobrir como integrar a versão em papel e a versão eletrônica. E poderá acontecer aquela situação bizarra, em que o rabo abana o cachorro, quando os produtos eletrônicos passarem a sustentar os impressos.

E os blogs?

Oh, os blogs... São mídia de transição. Vivem uma fase idealista e inocente, mas vão mudar. Já se disse que jornais são o rascunho da História. Os blogs serão o scratchpad da História, a memória temporária.

O senhor afirma que a internet personaliza a comunicação. Mas menciona o desejo coletivo de falar e ser ouvido.

O ideal é que as pessoas construam uma experiência coletiva no espaço cibernético. Minha preocupação, quando analiso essas relações, é o risco de isolamento. No tempo da mass media, era improvável o leitor não tomar conhecimento de algo do qual discordasse.

Difícil entender esse risco. Veja a China: o povo está saindo aos milhões de uma situação de isolamento ao se conectar à internet...

Mas o risco persiste. Falo do perigo de uma sociedade na qual internautas mergulham em profundas conversas apenas com pessoas que compartilham as mesmas visões. Como é que vai se formar a opinião pública? Disse Andy Warhol que toda pessoa deseja ter 15 minutos de fama. Ok. No espaço cibernético, as pessoas serão famosas por 15 segundos ou eventualmente por 15 nanossegundos. Tudo é fugaz. Só que a opinião pública resulta desse mix entre cultura e comunidade. Diante do fugaz, haverá uma hora em que a opinião única, singular, de um indivíduo apenas, poderá causar um impacto tremendo e se consolidar como a idéia certa no momento certo. Fico, sim, preocupado com espaços de informação que reforçam o que é preconcebido. São espaços fechados, como um jardim cercado de muralhas.

O senhor acha que a empresa Google capitulou diante das pressões do governo chinês, que exige filtros e ferramentas de segurança como condição para que o site de busca se expanda no país?

Não acho que Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, tenham vendido a alma ao diabo para conquistar o mercado chinês. Aliás, o lema da empresa é "do no evil", e eu realmente acho que o Google não é do mal. Acontece que quando se tem uma empresa como essa, com um crescimento espetacular como o que se vê hoje, fica-se menos poderoso, sabia? Para expandir o negócio tiveram de fazer concessões. Ok, isso me desapontou, mas, por outro lado, Page e Brin foram corajosos ao enfrentar as tentativas da administração norte-americana de controlar informações pessoais monitorando sites de busca.

Afinal, a privacidade está ameaçada na rede?

Depende. Se a revolução tecnológica continuar em bom ritmo, a privacidade vencerá porque seremos capazes de criar sistemas que irão superar o controle e o alcance dos bisbilhoteiros. Mas, se a revolução tecnológica perder velocidade, então os bisbilhoteiros vão vencer e serão capazes de espionar tudo o que fizermos. Não sei o que o futuro nos reserva, apenas está ficando claro que estruturas de poder de grandes companhias telefônicas estão sendo utilizadas por corpos governamentais no sentido de saber como se controlam as coisas... A salvação é acelerar a revolução tecnológica.

O senhor perde o sono quando pensa num mundo cada vez mais conectado, porém mais sujeito à expansão do fundamentalismo?

Não. Aliás, nessa discussão, continuo um velho otimista. Movimentos fundamentalistas, protagonizados por cristãos, judeus ou muçulmanos, são o que antropólogos chamam de "cultos em crise", pois se definem pela ameaça que enxergam no outro. E também pelo desejo de voltar a tempos antigos e melhores. Essa é a grande diferença entre fundamentalismo e modernidade. O primeiro quer olhar pelo retrovisor para um tempo mítico, supostamente melhor. Já a modernidade quer olhar para a frente, acreditando sempre que o futuro será melhor que o passado.

Quem vai ganhar o embate?

As ondas de fundamentalismo não trazem nada de novo. São o suspiro de morte de algo muito velho. O que nos atinge não são conflitos religiosos, mas o confronto entre moderados e extremistas. Quem são os inimigos dos neoconservadores americanos? Os radicais islâmicos? Não. Ao contrário, sob certa medida, eles acabam funcionando como parceiros inesperados. Ambos conspiram contra pessoas sensíveis, que buscam caminhos para a humanidade. Ainda assim, continuo tranqüilo. A História me encoraja. Vai dar modernidade.

O ESTADO DE SÃO PAULO. 12.02.06