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Os Independentes do Ritmo (*)

João Ubaldo Ribeiro


JOÃO UBALDO RIBEIRO

O nome acima era afetuosamente usado para designar um conjunto musical que fez breve carreira na Salvador de meu tempo, que os anos não trazem mais. Eram os Independentes do Ritmo porque cada um tocava para um lado. Lembrei-me deles agora, depois de assistir a um nobre deputado cujo nome me escapa passar uma eternidade para fazer uma pergunta ao ministro Palloci, se embaralhando todo, ao ponto de esquecer a pergunta. Fiquei aliviado quando o ministro, que não pode ser levado na conta de burro, disse que não tinha entendido, porque eu também não tinha bispado nada. Aí a bola voltou para o deputado, que fez umas embaixadas e lavrou jóias da oratória pátria, tais como “V. Excia. sabia de que”, amaciou a pelota, deu umas duas cabeçadas, aparou na coxa e perguntou algo ainda difícil de entender mas patentemente anódino, cuja resposta não tive paciência de esperar.

Fiquei imaginando o dinheiro gasto nessas pizzas que, a não ser num raro caso ou outro, não vão efetivamente punir alguém. E naquela pantomima toda, o presidente entrando em clima de “primeiro reeleição, segundo reeleição, terceiro reeleição, último reeleição” e achando que ninguém está notando, o país parecendo novamente à deriva e o governo e seus trinta ou quarenta ministros lembrando saudosamente os Independentes do Ritmo, a sensação geral de que nada vai chegar a lugar algum.

Chutando alegremente antigos parceiros para os lados, dando uma cotovelada aqui e acolá e adotando posturas ambíguas, o presidente permanece no palanque de onde nunca saiu e seu único objetivo — de novo, ele pensa que engana, mas transparece — é reeleger-se. Claro que o que estou dizendo seria negado por ele, como também era negado pelo dr. Fernando Henrique. Escrevi aqui, quando comecei a me estranhar com esse governo, que o dr. Fernando Henrique, como primeiro disse o Verissimo, era um mau presidente, mas daria um excelente ex-presidente. De fato seria, discursando em francês e tudo mais que nos infla o peito de orgulho, e só não é verdade ainda porque também está na cara que ele bem que gostaria de fazer mais um sacrifício pela nação e ser presidente outra vez — dispomos de vasto acervo de gente que quer sacrificar-se pela nação, notadamente que já está ou esteve no bem-bom.

Ele não apenas só pensa naquilo como já mostrou que é capaz de trocar aliados, dispensar quem serviu mas não serve mais e dar opiniões conflitantes com seu comportamento, sempre que for necessário. Porque, isto digo eu, e assumo que é subjetivo, aceito até que opiniático, mas pelo menos é honesto, o que ele quer mesmo é o poder, é ficar por lá o tempo que der, como o ditador africano por quem professou mal-disfarçada inveja. É o barato dele, são as viagens, os discursos, as homenagens, o turismo oficial, a babação geral — essas coisas do poder. E, de novo admitindo subjetividade, tenho a certeza de que ele mente, quando diz que a Presidência não lhe interessa por si, não nasceu presidente. Não nasceu, mas chegou lá e agora quer ficar o máximo de tempo possível. Acredito que, hoje, tudo para ele é visto depois de passado pela peneira da reeleição. Se é bom para a reeleição, que seja feito. Se não é bom, que seja tirado da frente.

Dirá alguém que ele está sonhando alto, porque nada garante que seja reeleito. Mas todos os entendidos no assunto com quem converso ou que leio acham que ele se reelege mole. Quem não gosta pode ser o classe média que toma chope nos melhores botecos, mas o povão mesmo vai votar nele. Até o desgaste do PT, dizem-me alguns desses entendidos, não será tão intenso quanto se imagina. E o Bolsa-Família elege, me disse uma amiga que é mais inteligente e sabe mais das coisas do que eu. Bem, não vou discutir com os entendidos e tampouco com as pesquisas, ele vai ser reeleito. E, assim como o dr. Fernando Henrique tem tudo para ser um grande ex-presidente, Lula foi dos melhores ex-candidatos de nossa História.

Nesse caso, seria pedir muito um plano de governo? Um programazinho certinho ou mais ou menos certinho, com aquele receituário elementar dos cursos de planejamento? Os objetivos do governo são tais e tais. Esses objetivos são quantificáveis em tais e tais metas. Pronto. E aí tentar seguir esse programa, tentar fazer pelo menos um décimo do que pode ou prometeu fazer. Vá lá, um centésimo. Um centésimo do que ele prometeu estaria de bom tamanho. Pelo menos que aquele espetáculo do crescimento em que ele vivia falando não aconteça só com os bancos e uns tantinhos outros, mas ao chamado povo em geral. O antidenuncismo como programa de governo me parece muito pouco, embora renda cada improviso mais retado do que o outro.

Mas não creio que isso aconteça. Quem faria o tal programa agora? Quais são os quadros de que o poder dispõe, a esta altura? Que podemos almejar, a não ser a um governo reativo como esse? Pois o governo não tem costumado tomar iniciativas e, quando as tomou, muitas foram desastrosas. Se acontece alguma coisa, aí, sim, ele reage, nem sempre com eficácia. Mas é o que temos, segundo, repito, os entendidos e, até agora, as pesquisas. Os Independentes do Ritmo vão continuar a desafinar para cima e para baixo e nós vamos continuar a ouvir discursos sindicais. Se é inevitável, que fazer? Relaxar, como sugere o compreensivo urologista, ao fazer o discutido exame de toque. É, relaxemos, pois, afinal temos à frente da nação um homem que sabe o que quer: a Presidência é dele e ninguém tasca. Quando os Independentes do Ritmo tocavam, a gente fingia que não percebia e dançava. Continuaremos a dançar, nascemos para bailar.

JOÃO UBALDO RIBEIRO é escritor.

(*) O GLOBO - 03.12.05