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Transito: o futuro do pretérito (*)

José Roberto de Souza Dias

Parece que fazem décadas que as ruas brasileiras foram tomadas de gente lutando por seus direitos fundamentais, entre estes o de ir e vir na plenitude do que a Constituição lhes garante. Entretanto, faz pouco mais de um ano que ocorreram as manifestações de junho e tudo já foi olimpicamente esquecido pelos governantes.

A copa do mundo e as eleições presidenciais acabaram de acontecer e as velhas promessas travestidas de ideias novas já se acumulam no “cesto” despacho, antes mesmo do início oficial de um novo período de governo. Triste sina destes trópicos meridionais!

As manifestações de 2013, antes de serem manipuladas pelo terror para esvaziá-las, apontava para principais questões que atormentam a vida da família brasileira: a educação, a saúde, a segurança pública e a mobilidade urbana.

A Copa do Mundo veio a calhar para as autoridades de plantão e foi usada como uma varinha de condão para, num passe de mágica, “resolver” alguns desses problemas, principalmente os relacionados com a segurança pública e a mobilidade.

A palavra de toque passou a ser legado. Quando as ruas questionaram os altos custo desse evento esportivo para um país em desenvolvimento, a resposta automática todos já sabiam qual seria: legado

A sociedade brasileira logo se apercebeu que existia uma enorme distância entre o propagandeado pelos magos do marketing politico e o que sobraria da grande festança de gastos com o futebol.

O que foi prometido, para variar, não foi cumprido como o planejado e entraram para o rol daquelas que um dia seriam terminadas. Pior ainda, outras nem sequer saíram das pranchetas.

A imprensa - brasileira e internacional – em diferentes momentos noticiou o que estava acontecendo nas doze cidades-sede da Copa do Mundo. Assim, os leitores ficaram sabendo que entre obras acabadas e não realizadas gastou-se R$ 29,2 bilhões, enquanto o planejado era de R$23,5 bilhões. Ou seja, gastou-se a bagatela de R$ 5,7 bilhões além do previsto. Entre as obras planejadas apenas os estádios foram concluídos sem sofrer alguma baixa. As arenas custaram R$ 8 bilhões para o país, sendo mais de 50% do valor previsto em 2010.

Alguns projetos de mobilidade urbana foram alterados por outros menos custosos e de menor eficiência, como por exemplo os trens e monotrilhos que foram substituídos por simples corredores de ônibus. O Brasil, mesmo assim, gastou muito e fez menos com pouca qualidade, como afirma a pesquisadora Aryana Frances.

As prioridades das ruas de junho foram escandalosamente invertidas. O legado da Copa, cantado e decantado por todos os cantos, transformou-se em estádios de futebol pomposamente chamados de arenas, alguns verdadeiros elefantes brancos no meio do nada e sem times capazes de arrastar multidões. Além dos espaços futebolísticos, alguns aeroportos foram reformados, como o de Brasília, que na primeira grande chuva transformou-se em um verdadeiro piscinão.

O principal legado, que era o transporte, que ficaria para a população local, foi colocado em segundo plano e alguns nem mesmo concluídos. Segundo o “Estado de São Paulo” nas doze cidades-sede estavam previstas 74 obras de mobilidade urbana e 46 continuam inacabadas ou mesmo não iniciadas.

São muitos os exemplos a mostrar que os gritos das ruas não foram ouvidos em sua essência. É o caso do monotrilho de Cuiabá que talvez esteja concluído no segundo semestre de 2015. Já em São Paulo, o monotrilho ainda está em construção. Algumas obras foram abonadas ou canceladas, como o Expresso Aeroporto em que o trem ligaria o centro da cidade de São Paulo até Cumbica.

Importante lembrar que só o transporte público de qualidade será capaz de resolver o gravíssimo problema de mobilidade urbana que atinge cada vez mais nossas cidades. Ao mesmo tempo, sua utilização em grande escala, permitirá controlar e diminuir a violência no trânsito.

Medidas pontuais como a atualização nos valores das multas em função da inflação dos últimos anos ou o endurecimento para as infrações mais graves e para os crimes de trânsito, são salutares e encorajadoras. Mas por si só não resolvem.

Necessário se faz que o governo cumpra a Lei antes mesmo de aplicá-la. Importante que siga a risca o Artigo 320 do Código de Trânsito onde diz que toda a receita arrecadada com a cobrança das multas de trânsito será aplicada, exclusivamente, em policiamento, fiscalização, sinalização, engenharia de tráfego, de campo e educação.

Mesmo assim, insiste-se na importância de ouvir a voz rouca das ruas e o recado mais que perfeito dado pelas urnas de outubro. A cidadania quer mudanças verdadeiras, não falaciosas, e já.

Todos cansaram de promessas vãs, de esperar que as coisas aconteçam por combustão natural, sem planejamento e sem vontade política verdadeira. As férias de verão estão chegando, as estradas, na maioria em péssimo estado, mais uma vez serão palco de um trânsito que continuará sendo o futuro do pretérito.

(*) José Roberto de Souza Dias é Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP. Professor Adjunto da UFSC criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, foi Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – Denatran. Secretário Executivo do Gerat da Casa Civil da Presidência da República, Diretor de Planejamento da Secretaria de Transportes do Rio Grande do Sul, Presidente do Instituto Chamberlain de Estudos Avançados, Membro do Conselho Deliberativo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito-Monatran, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Coordenador do Núcleo de Articulação Voluntária, Nav.