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A COPA E O COPO (*)

JOSÉ ROBERTO DE SOUZA DIAS

A copa e o copo (*)

O site do insuspeito jornal Epoch Times que circula em 35 países e 21 idiomas, destacou na manchete de 19 de janeiro deste ano que a FIFA ordenou a venda de cerveja na copa do mundo de 2014. Exatamente isso, sem tirar nem por.

O jornalista Alex Johnston, em sua matéria, destacou que o órgão que rege o futebol mundial, ordenou que o Brasil, anfitrião da Copa do Mundo de 2014, liberasse a venda de cerveja em todos os locais de jogos. A imprensa de todo o mundo repercutiu essa informação em detalhes.

O Secretário Geral da FIFA quando entrevistado pela BBC, British Broadcasting Corporation, emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido, disse que as “bebidas alcoólicas fazem parte da Copa do Mundo da FIFA, então, nós as teremos no Brasil. Desculpe-me se sou um pouco arrogante, mais isso não é algo negociável” e acrescentou, “O fato de termos o direito de vender cerveja deverá ser parte da lei da Copa.”

O jornal Financial Times repercutiu a informação dizendo que os 12 estádios brasileiros que fazem parte do torneio mundial terão que vender cerveja, uma vez que assim exige o contrato com a Anheuser-Busch InBev, uma das principais patrocinadoras da Copa do Mundo. Essa é a cervejaria líder global e uma das cinco maiores companhias de bens de consumo do mundo, com mais de 200 marcas de cerveja em seu portfólio.

Importante lembrar que no Brasil, desde 2003, é proibido vender bebidas alcoólicas nos estádios. Isso ajuda a conter a violência nos campos de futebol e no trânsito perigoso das cidades brasileiras.

O governo brasileiro cedeu aos interesses da FIFA e reformulou a legislação, voltando a permitir a venda de cerveja nas arenas da Copa.

Dessa forma, passamos para a história como o país que se apequenou perante os interesses comerciais de uma federação futebolística. Mais grave ainda, cedemos às pressões apesar dos números da violência urbana que nos fazem campeões mundiais em acidentes de trânsito. Imperdoável transigência!

O Ministério da Saúde e o da Previdência Social não tiveram capacidade de mostrar que a principal causa de mortes por violência no trânsito é o álcool, principalmente quando associado a grandes festas e eventos.

O jornal Valor Econômico em sua edição de 22 de janeiro deste ano, evidencia que os gastos da previdência social com acidentes de trânsito cresceram 54% em dois anos.

Em 2011 os benefícios pagos pelo governo e decorrentes de acidentes de trânsito foram de 7,8 bilhões de reais, em 2013 chegaram a casa dos 12 bilhões de reais.

Os especialistas são unânimes em afirmar que para reverter esse quadro se deve instituir imediatas políticas de prevenção, combinadas com o aumento da fiscalização, do policiamento e maciços investimentos em campanhas de combate ao hábito de beber e dirigir. Simultaneamente, é prioritário desenvolver programas de reabilitação e de conversão produtiva de trabalhadores vítimas de acidentes e assim, diminuir a crescente pressão das aposentadorias precoces.

O governo fez exatamente o contrário. Inebriado com os argumentos de Jérôme Valcke, de lucro rápido e fácil, chutou para longe a legislação brasileira, permitindo a venda de bebida alcoólica nas arenas da Copa.

O grande estimulador do copo na Copa, em entrevista coletiva publicada pelo Epoch Times, voltou a carga, ao afirmar que “80% do dinheiro ganho pela FIFA voltará para o futebol sob a forma de ajuda financeira”, deixou claro que o objetivo da Copa não é ganhar dinheiro.

Se o objetivo não é ganhar dinheiro, como explicar os seguintes números: as 12 arenas custaram 8 bilhões de reais, 285% acima dos R$ 2,8 bilhões estimados em 2007, mais do que o dobro dos R$ 3,2 bilhões da África do Sul e dos R$ 3,6 bilhões da Alemanha.

Segundo fontes da imprensa internacional, a entidade ganhará com o torneio cerca de R$ 8,8 bilhões com a Copa do Mundo e os contratos comerciais vinculados a área de comunicação, marketing e venda de pacotes turísticos. Por mais estranho que pareça estará isenta de pagar aproximadamente R$ 1 bilhão em impostos ao Governo Brasileiro.

Agora, compare esta orgia de gastos com o desperdício de 12 bilhões de reais pela previdência social brasileira com acidentes de trânsito, a maioria destes provocado pela mortal mistura de álcool com direção.

Mas, estes números não dizem tudo. Recente levantamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas de Álcool e outras Drogas, Inpad, da Universidade Federal de São Paulo, publicado em abril deste ano pelo jornal do CRM-SP, mostram que os jovens começam a beber aos 15 anos de idade.

O levantamento da UNIFESP identifica que 43% dos pesquisados fazem uso nocivo do álcool e o consomem de forma “binge”, ou seja, por impulso e de forma excessiva. Mais de 1/3 afirmam consumir, dessa forma, semanalmente.

Detectou-se, também, que beber e dirigir é uma prática comum, e que nas várias cidades observadas não existe um transporte alternativo nas saídas das baladas e que os jovens voltam de carro, inclusive, que muitos deles usam aplicativos que indicam a localização da polícia.

A exposição excessiva à publicidade das cervejarias explica, de certa forma, o consumo crescente de bebida alcóolica antes dos 18 anos.

Agora que a Copa está chegando ao fim, Jérôme Valcke em entrevista ao Sportv, se diz impressionado com a quantidade de álcool que as pessoas beberam durante os jogos: “me surpreendeu o nível de álcool, muitas pessoas estavam bêbadas, o que pode aumentar o nível de violência”.

Na forma autoritária que lhe é peculiar, e se expressando como mandatário de um país chamado FIFA, afirmou: “Se nós acharmos que precisamos controlar, vamos controlar. Foi um pedido da FIFA poder vender cerveja no estádio. É o que fizemos em todas as copas do passado. Estamos confiantes que a venda de cerveja é parte do jogo, é algo que acontece em todos os países, mas temos que ver. Fiquei preocupado com o nível de embriaguez, pessoas que não estavam se comportando bem, embriagadas”.

Depois da porta arrombada não adianta colocar trancas. No ar fica a pergunta que insiste em não se calar. A cerveja é mesmo parte do jogo ?

(*) José Roberto Souza Dias
Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP. Professor Adjunto da UFSC criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, foi Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – Denatran. Secretário Executivo do Gerat da Casa Civil da Presidência da República, Diretor de Planejamento da Secretaria de Transportes do Rio Grande do Sul, Presidente do Instituto Chamberlain de Estudos Avançados, Membro do Conselho Deliberativo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito-Monatran, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Coordenador do Núcleo de Articulação Voluntária, Nav.