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A Copa é nossa (*)(**)

José Roberto de Souza Dias

A Copa do Mundo já é nossa, não exatamente a do futebol, mas a dos acidentes de trânsito. Matéria publicada pelo jornal Valor Econômico repercute informação da Previdência Social que mostra que os gastos previdenciários decorrentes de acidentes de trânsito cresceram 53,84% nos últimos dois anos: saltaram de 7.8 bilhões de reais em 2011 para 12 bilhões em 2013.

O Governo, como ocorre nos últimos anos, é pego de surpresa e faz o que já é praxe, prometer mundos e fundos para salvar sua aparência, desgastada com sua fraca política de prevenção.

Aliás, não é só no trânsito que se percebe a falta de planejamento. Grandes e graves acidentes “naturais” se repetem constantemente e a culpa é da chuva, do cidadão que constrói em encostas, e claro, nunca das autoridades que não sabem prever para prover.

Outro exemplo são os apagões elétricos que se repetem e o culpado é o raio, a seca, a chuva ou um enigmático curto circuito, jamais a política energética e seus responsáveis .

Nos acidentes de trânsito não é diferente, o caminho mais curto sempre leva ao condutor, genericamente o culpado número um, mesmo que os repetidos eventos indiquem o raio de curva, a falta de “guard rails” ou péssimo estado de conservação das estradas.

Impossível esperar uma política de prevenção de governantes que a cada dois anos disputam um novo pleito e param toda à máquina pública para se reelegerem.

Prevenção é coisa para estadistas e não para gerentes de plantão. Por uma razão muito simples: prevenção depende de políticas de longa maturação. Por exemplo, a diminuição significativa dos acidentes de trânsito urbanos está condicionada a mudança da matriz de transporte das cidades. Isso não se faz de um dia para o outro.

As pessoas só vão deixar os carros e as perigosas motos de baixa cilindrada, quando o ônibus, o metrô, o monotrilho e as barcas, substituírem com qualidade e preço tarifário o transporte individual.

Alguns administradores públicos parecem duvidar da inteligência de seus eleitores. Só isso explica a forma com que lidam com a sociedade. Parece, por exemplo, não perceberem que a fluidez no trânsito ou a diminuição de acidentes não se resolve com a pintura de faixas para corredores de ônibus, licitações - algumas duvidosas - do transporte urbano ou o congelamento provisório de tarifas.

Pensam pequeno, agem menor ainda e estão apenas de olho nas próximas eleições. Não possuem a coragem dos estadistas que esquecem as placas de inauguração e trabalham por um futuro onde o nome do administrador se perde perante a benfeitoria da obra concebida. Grandes nomes não precisam de placas e de bustos, a própria História os reconhecerá.

A acidentalidade de trânsito no Brasil é de inteira responsabilidade dos governos que estimulam o transporte individual em detrimento do público de qualidade, e não tem a capacidade de formar e reciclar os condutores, nem de construir e manter vias seguras.

O resultado não podia ser outro, crescem os acidentes e a conta estoura na outra ponta do balcão, comprometendo inclusive a já combalida previdência social.

O mais grave é que 27% da frota nacional de veículos é formada por motos, a maioria de baixa cilindrada e a cada ano é crescente o número de acidentes com motociclistas. As despesas previdenciárias em 2013 foram mais altas devido aos acidentes de moto.

Interessante salientar os custos elevados de hospitalização e recuperação vítimas, principalmente nas pequenas cidades do interior brasileiro.

As poucas campanhas de prevenção concentram-se, principalmente nas grandes cidades e no eixo sul-sudeste. Deixando ainda mais vulnerável os pequenos e médios municípios.

Segundo, ainda, o Jornal Valor Econômico em 2011 foram atendidos pelo seguro obrigatório - DPVAT - 366,4 mil casos. Em 2013 - apenas no primeiro semestre - esse número já atingia a casa dos 299,3 mil Segundo previsão da Seguradora Líder, responsável pelo por esse sistema, pode-se chegar no final do período ao assustador montante de 600 mil desembolsos.

De todos os problemas o mais alarmante refere-se
a reabilitação profissional, o que coloca milhares de famílias em situação de risco.

O precário serviço governamental consegue reabilitar de 15 a 20 mil pessoas por ano, entretanto a demanda é de 300 mil.
As contas da Previdência Social são fortemente pressionadas pelas indenizações causadas pelos acidentes de trânsito. Em 2013, as despesa de aposentadoria por invalidez e auxílio doença superaram os 65 bilhões de reais. O impacto dos acidentes de trânsito nessas contas parece ainda não ter sido percebido pelos governantes , que atualmente estão mais preocupados com a Copa do Mundo e a reeleição.

Nas ruas e estradas trava-se uma guerra fratricida, que as autoridades não tiveram até hoje a capacidade de enfrentar. Ou, dito em outro sentido, “construir arenas é fácil”, difícil é virar o jogo do trânsito para a vida ganhar de goleada.

(*) José Roberto Souza Dias:. 
Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP. Professor Adjunto da UFSC criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes, foi Diretor do Departamento Nacional de Trânsito – Denatran. Secretário-executivo do Gerat da Casa Civil da Presidência da República, Diretor de Planejamento da Secretaria de Transportes do Rio Grande do Sul, Presidente do Instituto Chamberlain de Estudos Avançados, Membro do Conselho Deliberativo do Movimento Nacional de Educação no Trânsito-Monatran, Doutor Honoris Causa pela Faculdade de Ciências Sociais de Florianópolis – Cesusc, Coordenador do Núcleo de Articulação Voluntária, Nav.

(**)
Jornal do Monatran - fevereiro de 2014.