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Ruy Mesquita: um resistente

Fernando Henrique Cardoso (*)


Conheci Ruy Mesquita ao longo dos últimos 60 anos. Nem sempre próximos, nem sempre coincidindo em nossos pontos de vista. Mas sempre o vi como uma pessoa íntegra e como alguém que lutava por seus valores. Um homem digno e, sobretudo, um resistente, dos que têm a fibra requerida para os momentos em que tudo parece perdido.

Um homem na aparência arisco, movido, entretanto, por generosidade. Acreditava em ideais e lutava por eles, mesmo quando não vislumbrava chances de vitória. Repito: Ruy foi um resistente, do tipo dos que dão início às lutas contra as ditaduras ou contra as ocupações na época de guerras.

No momento de consternação por sua morte, procurei lembrar-me de quando e como conheci Ruy Mesquita. Foi nos tempos em que eu iniciava o curso de Ciências Sociais, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e Ruy, alguns anos mais velho, assistia aos cursos das turmas mais avançadas. Ainda era o "filho do Dr. Julio", epíteto ora favorável, ora restritivo, dependendo de quem fizesse a observação.

Eu estava nos meus 18 anos e tinha imagens confusas a respeito do Estadão. Um jornal liberal-conservador? Pode ser. Mas a visão negativa de alguns colegas contrastava com o que eu sabia desde menino, desde os anos 40. Meu pai, oficial do Exército, era amigo do dr. Ibanez de Moraes Salles, diretor do jornal a quem ajudara a se esconder da polícia, perseguido que fora, assim como o Estadão, na época da ditadura Vargas, como "comunistas".

A ambiguidade da minha percepção foi-se desfazendo aos poucos, seja por meu próprio amadurecimento, seja pelas atitudes que Ruy foi tomando. Muitos anos mais tarde tive a oportunidade de o conhecer melhor.

Conto dois episódios. O primeiro, ainda no regime militar, quando houve um debate organizado pela Unip, do Di Gênio. Auditório repleto com os ouvintes atentos ao que seria um esgrimir entre a esquerda e o conservantismo, eu e Ruy. Nossas posições, entretanto, não confirmaram os clichês: mais coincidimos do que divergimos sobre os rumos do País.

Um pouco depois disso, desta feita em uma TV, fomos chamados de novo à liça. Estávamos no governo Geisel. Pensávamos substantivamente a mesma coisa: a necessidade da volta à democracia. Tínhamos visão crítica a respeito da fúria com a qual o governo fomentava o que então eu chamava de "burguesia de Estado".

Tornamo-nos amigos. Ruy sempre se definiu como o que era: um jornalista. Lia tudo que lhe caía às mãos sobre política e relações internacionais. Tinha uma informação muito ampla. Cultivava com denodo o conhecimento rigoroso dos fatos. Mas tinha a coragem da interpretação. Tomava posição. Imprensa noticiosa, mas também combativa. Até hoje os editoriais do Estadão - que ficaram sob sua responsabilidade até o fim - são exemplos de sínteses nas quais os fatos são relatados objetivamente, mas a posição do jornal lhes dá o relevo que têm no contexto da política nacional. E isso vale para âmbitos amplos, da repulsa à corrupção e ao clientelismo até os rumos da sociedade e da economia.

Choro hoje não apenas a morte do grande jornalista, mas a perda do amigo. E não se pense que a combatividade política de Ruy Mesquita tenha lhe tirado o gosto de viver e a sensibilidade humana. No último aniversário a que pude comparecer em sua casa, tivemos uma noite com violeiros e Ruy cantando sambas, tangos ou o que mais fosse. Era seu lado humano. O lado do marido, do pai, do amigo, sempre pronto a compartilhar as alegrias da convivência.

São Paulo e o Brasil perderam um grande cidadão, que amou sua terra, esta São Paulo tão brasileira, e lutou para construir uma sociedade mais decente. Que o exemplo tenha seguidores.

(*)Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente (1995-2003)