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POR UMA SOCIEDADE DECENTE

José Roberto de Souza Dias e Basílio Garcia Rosa(*)

POR UMA SOCIEDADE DECENTE (*)

O século XXI certamente será conhecido como a era do conhecimento. Países produtores de “cérebros” e exportadores de tecnologias avançadas farão parte de um clube cada vez mais seleto, rico e exclusivo.
Os países exportadores de commodities minerais e proteicos, ao contrário daqueles, estão condenados ao desenvolvimento periférico e dependente. O mesmo ocorre com os de industrialização reflexa, ou seja, os que produzem a partir das matrizes do conhecimento externo. Estes são capazes de edificar fábricas, montar máquinas, produzir e exportar produtos, mas não têm a capacidade de produzir conhecimento.
Na época do capitalismo mercantil a riqueza se media pela quantidade de metais preciosos acumulados por um Estado Nacional. A revolução industrial rompeu com o monopólio colonial e levantou a bandeira da liberdade de fazer e comercializar. Nessa época não bastava acumular metais, era importante transformá-los e transportá-los para todos os mercados do mundo. A indústria e o comércio livre passaram a ser sinônimos de riqueza.
Hoje, o investimento em pesquisa é fundamental já que no século XXI conhecimento é sinônimo de riqueza.
O Brasil, infelizmente, caminha na contramão desse fluxo. Discursos e intenções a parte, a verdade é que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação teve o orçamento reduzido em 23%, o que corresponde a R$1,5 bilhão.
De acordo com o Science Club pelo segundo ano consecutivo ocorrem cortes orçamentários na área da ciência e tecnologia. Entre 2005 e 2011 mais de um quarto dos recursos foram contingenciados, ou seja, cerca de R$3,2 bilhões deixaram de ser disponibilizados para as atividades de pesquisa e desenvolvimento.
Enquanto isso, para orgulho das autoridades federais o PIB brasileiro ultrapassou o britânico e nossa economia tornou-se a 6ª do mundo. Claro que essa posição só foi alcançada graças à exportação de commodities, portanto nenhum sinal de avanço em direção a economia do conhecimento.
O mais dramático é que o desempenho econômico não se refletiu no Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, entre os 187 países avaliados o Brasil ocupa a vergonhosa 84ª posição.
Os números dizem melhor que as palavras. Pesquisas realizadas pela Organização Internacional do Trabalho - OIT e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO, detectaram que o professor brasileiro do ensino básico ganha o 3º pior salário do mundo.
Tal profissional recebe em média menos de US$ 5 mil por ano. Isso mesmo, por ano. Em Portugal o salário anual chega a US$ 50 mil, equivalente aos salários pagos aos suíços. Na Coréia, os professores primários recebem seis vezes mais que um brasileiro.
No ensino superior o quadro não é diferente. Pesquisa publicada pela Folha de São Paulo, em sua edição de 29 de abril deste ano, traz um estudo inédito que compara o salário docente em 28 países. Resultado, o salário do professor universitário canadense paga o de dois brasileiros se estes pertencerem a uma universidade publica. No ranking salarial dos países pesquisados as universidades brasileiras ocupam o 17º lugar.
Apesar dos maiores salários estarem nas universidades públicas, 75% dos alunos estudam nas particulares. Nestas escolas 81% dos docentes não possuem dedicação exclusiva. Nas públicas 48% dos professores têm doutorado contra apenas 8% nas privadas.
Segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico - OCDE, o Brasil tem apenas 8% da população com ensino superior completo. A média dos países da OCDE é de 26%. O México possui 15% da população, a Argentina tem 14% e o Chile 13 por cento.
Os números aqui colocados mostram ser praticamente impossível dar um salto em direção a economia do conhecimento enquanto a educação, a ciência e a tecnologia continuarem a ser tratadas como tema preferencial nos discursos políticos, mas relegadas a planos inferiores nos planejamentos governamentais.
A escola, fora legitimas exceções, deixou de formar o cidadão para a pratica da democracia. Os exemplos que vem de cima muitas vezes dão legitimidade à conduta desonesta, com o uso das velhas práticas, como o importante é fazer, não importa se foi correto, gerando o não sei, não vi, não ouvi. Tenta-se colocar no inconsciente coletivo que o importante não é ir à escola, ter conhecimento, mas ser esperto, oportunista, levar vantagem em tudo dentro do histórico “jeitinho brasileiro”. Demonstram que da escola o importante não é o aprendizado, mas o diploma.
Tudo isso é agravado pelo despudor da corrupção. Matéria da revista Veja publicada em outubro de 2011 confirma que nos últimos 10 anos, segundo estimativas da FIESP, foram desviados dos cofres brasileiros R$ 720 bilhões. No mesmo período, a Controladoria-Geral da União fez auditorias em 15.000 contratos da União com estados, municípios e ONGs, tendo encontrado irregularidades em 80% deles.
Tudo isso compromete o presente e o futuro da sociedade brasileira e atinge cada uma das pessoas no seu cotidiano. Apenas um exemplo de um setor que depende de cidadãos educados para que seu bom funcionamento deixe de causar tensões e transtornos, a área de trânsito: o descaso do poder público em setor extremamente estratégico têm provocado óbitos superiores a muitas guerras e suas consequências são minimizadas a ponto de deixar o observador atento estupefato.
Como um país nessas condições pode dar um salto de qualidade e entrar de vez no século do conhecimento?
Mas tudo isso pode mudar, vai mudar, na medida em que as pessoas conscientes de seu papel social participarem, como diz Fernando Henrique Cardoso, da construção de uma sociedade decente, que começa pelos primeiros gestos pessoais no trânsito, no trabalho, na escola, em casa. Afinal, a melhor forma de condenar um ato é manifestar a repulsa e através de uma análise fria e consciente propor mudanças e votar com dignidade.
(*) José Roberto de Souza Dias - Doutor em Ciências Humanas e Mestre em História Econômica pela USP.
Basílio Garcia Rosa, bacharel em filosofia pela USP.
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