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Dois hambúrgueres, alface, queijo...

Manuelito P. Magalhães Júnior

O senhor Smith está de volta. Para refrescar a memória dos leitores, John Smith foi o personagem fictício da coluna publicada no dia 22 de setembro passado, cujo tema foi a sobrevalorização do real frente às moedas estrangeiras. O aposentado do Nebraska aplicou parte de suas economias no Brasil e ajudou a explicar o quanto é complicado conter a enxurrada de dólares do exterior que entra diariamente na nossa economia, em busca das nossas altas taxas de juros, num processo que chamamos de "a armadilha do câmbio". (Para quem não leu ou quer reler, vai o link: http://www.dcomercio. com.br/materia.aspx?id= 52693&canal=14).

Por essa fictícia operação, que levou o senhor Smith a obter lucro fácil, pudemos ver o quanto é simples e seguro, hoje, para qualquer cidadão do planeta, enviar seus dólares para o Brasil e lucrar com a arapuca em que nos metemos, ao desperdiçarmos, nos últimos anos, a oportunidade de praticar juros "civilizados".

Para continuar ilustrando a questão cambial, vamos aproveitar os lucros obtidos pelo senhor Smith e levá-lo a fazer uma rápida viagem pelo mundo. Antes, porém, um aviso aos leitores que a esta altura já sentem um frio na barriga só de pensar no tempo de espera nos aeroportos: com exceção do Brasil, onde ainda estão esperando os investimentos necessários para a modernização, os demais estão funcionando a contento.

O giro do senhor Smith será feito pela Europa (zona do euro), Rússia, China e Brasil. E como bom norte-americano ele aproveitará suas paradas em cada país para comer seu lanche favorito: um suculento Big Mac, sinônimo para "dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles no pão com gergelim".

Para encurtar a viagem e não cansar os leitores, vamos deixar de lado as escalas e encontrar nosso personagem aqui no Brasil, à espera do voo que o levará de volta para casa. Intrigado e com muito tempo de sobra, devido ao atraso no embarque, o senhor Smith faz e refaz as contas, mas não consegue acreditar no fato de que, dentre todos os países que visitou, foi justamente no Brasil onde ele pagou mais caro pelo mesmo sanduíche.

Vamos aos números: nos Estados Unidos, o Big Mac custa US$ 3,91. Na zona do euro, ele pagou US$ 4,19. Na Rússia, o preço era US$ 2,39 e, na China, gastou US$ 2,18, quase a metade do preço de sua terra natal! Mas o que realmente deixou o senhor Smith surpreso foi o preço do Big Mac no Brasil: US$ 5,26, ou seja, 42% mais caro que em seu país.

O senhor Smith ainda deve estar pensando como o nosso país é caro para viver e se apressa a entrar na sala de embarque, antes que os lucros obtidos com a aplicação de suas economias aqui no Brasil virem batata frita.

Toda essa nossa introdução serve para apresentar o famoso índice Big Mac, criado pela revista The Economist. Certamente seus editores não desconfiavam, ao publicá-lo pela primeira vez, que ele acabaria servindo para ilustrar centenas de estudos econômicos, mundo afora, sobre a paridade do poder de compra das moedas nacionais. A ideia é simples e vale relembrar: dada a enorme internacionalização da rede de lanchonetes que fabrica o famoso sanduíche, vendido com os mesmos ingredientes em diversos países, o Big Mac se tornou um produto cujos preços podem ser facilmente comparados e, por isso, seu custo medido em dólares pode exprimir a diferença entre as moedas desses países. No caso, usando o índice Big Mac, o real estaria sobrevalorizado em mais de 40% em relação ao dólar.

Já o yuan, a moeda chinesa, estaria desvalorizado em mais de 40%.

A estória do senhor Smith pode parecer engraçada para quem lê, mas certamente a história real é muito preocupante para a nossa indústria, que necessita exportar. Por conta da valorização do real, está cada vez mais difícil para o empresário exportador brasileiro vender, por um preço competitivo, sua mercadoria lá fora, pois os mais de 40% de sobrevalorização encarecem, em dólar, os nossos produtos.

Já a desvalorização da moeda chinesa torna seus produtos muito mais baratos. A prova dos nove é o exemplo da comparação entre os preços internacionais do Big Mac, ainda que ninguém pretenda exportar sanduíches!

O ministro da Fazenda brasileiro clama aos quatro ventos contra a "guerra cambial". Recentemente, até triplicou o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre os dólares que chegam do exterior para aproveitar a farra dos nossos juros, passando de 2% para 6%. A medida sequer fez cócegas no investidor estrangeiro, tanto que a cotação do dólar continua na casa de R$1,70. O resultado desse processo é um acúmulo de mais de US$ 280 bilhões em reservas internacionais em outubro, mês em que o BC realizou a segunda maior compra da moeda americana no ano.

Com essa atitude, o País tenta manter a taxa cambial em patamares que não levem o exportador ao suicídio – mas fica cada vez mais clara a pouca efetividade dessa medida. Isto porque, para comprar esses dólares, aumentamos nosso endividamento, pagando 10,75% de juros nos empréstimos.

E, curioso, aplicamos os dólares comprados em títulos do tesouro norte-americano, que pagam taxas próximas de zero, ou em outros papéis cuja remuneração gira em torno de 2%!

A diferença entre quanto o governo paga de juros para comprar dólares (10,75%) e quanto recebe para aplicá-los (de 0,25% a 2%) dimensiona o custo dessa estratégia: R$ 45 bilhões – ou cerca de 1,5% do PIB – e, por óbvio, estabelece seus próprios limites.

Para os curiosos, o senhor Smith já está de volta ao Nebraska, correndo atrás de seu rebanho. Afinal de contas, precisa perder os quilinhos a mais que ganhou na viagem. Ninguém come tanto Big Mac impunemente.

*Manuelito P. Magalhães Júnior, economista, é presidente da Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S/A). Foi secretário adjunto e titular de Planejamento da cidade de São Paulo entre 2005 e 2009
Fonte:
Diário do Comércio
Opinião
Quinta-Feira, 4 de Novembro de 2010