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Síndrome do Cavaleiro Medieval

Jose Roberto de Souza Dias *

Uma grave epidemia espalha-se pelo trânsito brasileiro, atingindo uma população,cada vez maior de condutores. Trata-se da síndrome do cavaleiro medieval.Mortal, na maioria das vezes, atinge principalmente jovens e a maior incidência ocorre nas noites dos finais de semana, nos feriados prolongados e nas férias.

Pesquisas recentes mostram que atinge homens e mulheres, condutores e passageiros de veículos e pedestres, indistintamente.Interessante notar o efeito rebote dessa epidemia. A modernização das
montadoras de veículos e a transformação do carro-carroça em um veículo moderno,com tecnologia de ponta no que se refere à segurança de motoristas e
passageiros, tiveram um efeito contrário. Em vez de atenuar a moléstia acabou por estimular o comportamento de risco, agora impulsionado pela falsa idéia da segurança absoluta.

Montados em seus cavalos reluzentes e escondidos atrás dos vidros escurecidos de suas armaduras, esses novos cavaleiros se sentem absolutamente imortais. Nenhuma lei lhes atinge e, em casos extremos, são apenas condenados a prestar serviços à comunidade ou a doar uma cesta básica, por algum tempo.

O comportamento de risco desses cavaleiros medievais é responsável por menos anos na vida de pessoas jovens, maior do que o provocado pela maioria das doenças.

A superestimativa da habilidade de manejar o veículo em alta velocidade é o agente etiológico dessa manifestação que se exprime na conduta
de macho, de corredor habitual e de infrator contumaz.Tudo isso estimulado pelo álcool e a droga, principalmente a cocaína, importante
vetor dessa moléstia. Estudos realizados em serviços de emergência e institutos médico-legais confirmam a positividade em alcoolemia em 61,4%
de acidentados e 52,9% em vítimas fatais. Para o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, 80% dos acidentes de trânsito estão relacionados ao consumode álcool.

Esse quadro certamente seria mais grave se constasse o consumo de cocaína e seus derivados, o que não ocorre pelo simples fato de praticamente inexistirem pesquisas sobre o consumo dessa droga entre acidentados de trânsito. Esse é o caso típico de não identificação da febre pela falta do termômetro. Mesmo assim,pode-se afirmar que os acidentes de trânsito são um dos sérios malefícios
do narcotráfico.

Isso pode ser comprovado por estudos correlatos que demonstram o aumento no consumo da cocaína no Brasil, que nos últimos anos transformou-se em
importante pólo consumidor, além de entreposto de distribuição da droga para outras regiões do mundo. A expansão do mercado interno do pó branco foi a formula encontrada pelo crime organizado para ajudar a manter as estruturas que garantem o comercio externo da cocaína, mais dispendioso e de maior risco.

Assim, os acidentados de trânsito e suas famílias são vítimas duas vezes: da imprudência ao volante e da guerra sem fronteiras do narcotráfico que se espalha da selva amazônica e invade as cidades e os lares brasileiros.

A profilaxia dessa doença chamada de acidente se faz através do policiamento,da fiscalização e da educação, ou melhor, da aplicação pura e simples
do Código de Trânsito. O problema não está nos bares, nem nas festas, nem na propaganda abusiva,
mas no motorista travestido de cavaleiro medieval que se esconde atrás de sua armadura de lata e compensa suas frustrações atrás de um volante.

Desmascarar esses falsos heróis, escondidos atrás dos vidros escurecidos de seus carros ou da viseira de seus capacetes é, sem dúvida, um bom e eficiente tratamento.

Jose Roberto de Souza Dias
* Mestre em História Econômica e Doutor em Ciências Humanas pela USP, professor adjunto da UFSC,criou e coordenou o Programa PARE do Ministério dos Transportes e foi diretor do Departamento Nacional de Trânsito - Denatran.