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O Brasil à mercê dos urubus

Carlos Guilherme Mota

Os recentes episódios de novos levantes em presídios, com reféns apavorados, e a renovada violência contra cidadãos em constantes assaltos a motoristas nos engarrafamentos, semáforos e túneis parecem ter entrado para o limbo do noticiário. A rotina, a repetição, a falta de imaginação de assaltantes, assaltados, policiais e jornalistas tiraram até a graça e o terror de episódios dessa natureza, que - nada obstante - revelam algo mais profundo: as lutas de classes, agora disfarçadas em banditismo, corrupção, impunidade. Não há surpresa nisso. Trata-se do contragolpe histórico da expropriação estrutural conduzida por uma burguesia predatória (como define o urbanista Candido Malta) que não soube aprimorar os mecanismos de distribuição de renda e educação nem modernizar os aparelhos de Estado numa direção civilizada e democrática, com os necessários mecanismos de coerção ao banditismo funcionando de modo pleno, disciplinado e transparente. A tal "socialização das perdas", de que falava Celso Furtado, chegou assim de modo oblíquo, pela porta dos fundos: arrastões em edifícios e condomínios que por vezes envolvem 20 ou mais assaltantes.

No modelo de capitalismo implantado nessa periferia, as cidades - os lugares da urbanidade - perderam essa característica básica, transformando-se em campos de batalha onde as relações de produção e o consumo se aceleram freneticamente. A urbanidade cede passo à selvageria, a cultura do stress se impõe como normal e os valores humanistas se dissolvem nas salas de aula, nas escolas, nos hospitais, no remanso agora trepidante das famílias dispersadas, exauridas. Um novo conceito se instala em São Paulo: o de anticidade, a não-cidade que nem nossa é, o lugar próprio para se cultivar barbárie, aspereza e rusticidade ancestrais. Uma nova ordem agora se estabelece, animada pela cultura digital: a da delinquência, do banditismo, com suas regras, sua "ética", conceitos, tecnologia, estratégias e novas táticas. "Desordeiros" não são, pois possuem sua "ordem" bem estabelecida, com celulares e por vezes até laptops, terno e gravata. "Delinquentes" não, pois o termo não é politicamente correto? embora Marx e outros estudiosos tenham indicado que nada se pode fazer quando a delinquência ultrapassa o ponto de não retorno, indo para o lixo da história. É o universo do lumpesinato, no qual se inclui também a lumpemburguesia, de onde saem grandes delinquentes e aspones, alguns de uma certa "esquerda" complacente. Eis uma sociedade "que cria o próprio inferno", denuncia um físico brasileiro, "e depois se queixa de que está quente demais..."

Não por acaso nos últimos meses os sequestros relâmpagos, as crescentes ameaças telefônicas por celular e correspondentes negociações com os incautos para pagamento de resgate, mais achaques de todo tipo, são coordenados do interior de presídios. Todos sabem disso. A tecnologia de bloqueio eletrônico de edifícios e até mesmo de regiões parece ainda ser desconhecida de nossas autoridades intimidadas, elas também sujeitas a pressões e vinditas, em caso de providências e medidas mais radicais e decisivas que porventura venham a tomar.

Sejamos claros: a delinquência está fazendo seu papel, com enorme competência. As redes estão bem montadas, por vezes com relações públicas educados e especializados em negociação. Falta agora a sociedade civil (supondo que ela ainda exista, embora em frangalhos) utilizar-se de seus recursos, com metodologia renovada, com seus Eliots Ness, talvez não adotando a "tolerância zero" como em Nova York, mas tampouco aderindo à "tolerância total", amaciada e certamente bem remunerada.

Certo, nossa problemática político-policial não é simples. Mas há muitas figuras de valor e pensantes na PM, na Polícia Federal, nas Forças Armadas. Pois se trata, neste caso, da segurança nacional, que vem sendo minada pelo narcotráfico, mas não só por ele: o tecido social está esgarçado, roto, esfarelado, com guarda-costas demais, vigias demais, estacionadores demais, carros blindados demais (até como indicadores de status?).

O problema é que ainda remanesce a má consciência de esquerdistas no governo que se melindram ao tratar de temas tão "desagradáveis", que evocariam o passado ditatorial, as torturas, etc. Péssimo pretexto para justificar a inação, a falta de coragem desses ex-jacobinos arrependidos e inapetentes para a ação democrática para valer por parte do Estado. E, nesse ponto, tucanos e petistas dão-se as mãos.

Alertas e advertências já são muitos, como a do ex-governador e professor Claudio Lembo, liberal e conservador. Ao final de seu mandato, denunciou: "Sou conservador, mas não sou burro. Vejo o vulcão social". Resta a questão: por que a sociedade civil, globalizada, multinacionalizada, crescentemente deseducada, teima em não reagir, ou a reagir mal e pouco? Toda a sociedade civil - ou o que resta dela - permanece inerme, inerte, desmobilizada, ofegante e desesperançada qual baleia encalhada na praia, esperando a morte e apodrecimento ao sol, à mercê dos urubus.

Mas a culpa desse estado de terror que se vive neste país é de todos. "O que mais me preocupa não não é o grito dos violentos, mas o silêncio dos bons", dizia Martin Luther King. Não se concebe que nosso sistema carcerário seja o que é, distanciado dos padrões educacionais do século, enquanto centenas de congressos de pedagogia distraem os educadores dos agudos problemas do País? Mas não se concebe tampouco que as penas aplicadas por crimes hediondos - com motosserra, por exemplo - se transformem em curto prazo para penas de 6 anos apenas, com bons e azeitados advogados de porta de cadeia (não se mencionem os crimes de colarinho branco, para não ofender advogados desta nossa boa sociedade). Há algo de podre no estamento burocrático e restam poucos juristas como Raymundo Faoro.

A crise é de valores, sabemos, por conta do crescimento de uma massa deseducada que, nessa encruzilhada, se confronta com uma elite igualmente deseducada. O limite dessa história está lá, em 2006, quando São Paulo parou e os presídios dominaram a cena. No segundo mandato de Lula, delinearam-se todos esses impasses, o que levou o historiador Luís Felipe de Alencastro a indagar, ainda em 2006: "Afinal, o que se está querendo neste país? Que os evangélicos e a polícia resolvam os problemas gerados pela miséria e as desigualdades?"

A resposta cabe a todos nós, que almejamos uma nova sociedade civil assentada em alguns princípios democráticos da Revolução Francesa. Vale lembrar aos atuais donos do poder no Brasil (e em Brasília) a última advertência de Maximilien Robespierre, anotada em 26 de julho de 1794, pouco antes de seu guilhotinamento: "Sou talhado para combater o crime, não para governá-lo".

Quantos governantes podem dizer isso de cara limpa neste país?

Fonte:
O Estado de São Paulo
04/10/2009
Carlos Guilherme Mota
Historiador, professor emérito da FFLCH-USP, autor de Ideologia da Cultura Brasileira (Ed. 34) e, com Adriana Lopez, de História do Brasil. Uma Interpretação (Ed. Senac)

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