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Virada à paulista

Marcelo Leite

A crise na USP expõe sem retoques o que há de mais atrasado nela e, em parte, também nas outras universidades estaduais (Unicamp e Unesp).

Como ex-aluno das duas primeiras, só posso lamentar que valores acadêmicos -objetividade, racionalidade, debate livre de argumentos de autoridade- tenham alcançado cotação tão baixa na vida universitária.

Não se trata de saudosismo. Na década de 1970, a USP já era cheia de defeitos. O ensino de jornalismo na ECA (Escola de Comunicações e Artes), uma piada. Havia alguns bons professores, mas pouco podiam contra a mediocridade imperante. Apesar dos pesares, formavam-se na USP verdadeiros intelectuais. Bastava querer e aplicar-se. A matéria-prima estava lá.

E ainda está, como se pode perceber por alguns dados apresentados a seguir. Não se destrói uma universidade como essa em poucos anos, por mais greves e insensatez pseudopolítica que a tomem de assalto.

Metade da pesquisa brasileira publicada em periódicos científicos de nível internacional sai de São Paulo.

Isso tem muito a ver com a existência da USP, da Unicamp e da Unesp. As três instituições, assim como a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), se sustentam com percentuais fixos da arrecadação estadual. Sem essa regularidade, teriam virado farinha.

Muita gente acha que os bilhões de reais mantêm só um enorme cabide de empregos. Professores demais, na maioria "improdutivos". Essa imagem talvez contivesse alguma dose de objetividade no final dos anos 1980, quando havia seis a oito alunos por professor (de graduação e pós).

Hoje a Unicamp ostenta 18 alunos por docente. A USP, 16. A Unesp, mais de 12. As três ficam perto da média da Universidade da Califórnia em Berkeley, 17. "Elas responderam bem à autonomia", resume o fornecedor dos dados, Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fapesp e ex-reitor da Unicamp.

Formaram-se na USP, em 2008, 2.265 doutores (cerca de um quinto dos diplomados em todo o Brasil). Como a universidade tem 5.434 professores, dá 0,42 doutor por docente.

O escore da Unicamp é ligeiramente melhor, 0,43. Ambas aparecem à frente do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), com 0,35, de Stanford (0,34) e de Harvard (0,22 -a mesma cifra da Unesp).

Se fosse um país, o Estado de São Paulo seria o segundo maior produtor de pesquisa da América Latina. À frente de México, Argentina e Chile, e empatado com o resto do Brasil. Perderia feio da Coreia do Sul, com apenas um terço dos artigos originais de primeira linha publicados pelo tigre asiático. Mas não em produtividade.

Temos menos pesquisadores, o que faz baixar os números absolutos da pesquisa paulista. Mas cada cientista paulista, segundo Brito Cruz, produz por volta de 0,17 artigo por ano, em média, contra pouco mais de 0,10 na Coreia. São Paulo está noutra divisão, competindo nesse quesito com Austrália, Canadá, Espanha e Irlanda.

Tudo isso seria impossível sem USP, Unicamp e Unesp. É esse patrimônio que se encontra sob ameaça quando "revolucionários" e "reacionários" comandam a agenda universitária. Só se ouvem seus impropérios porque há uma multidão de professores e alunos, de hoje e de ontem, em silêncio -e uma reitora perdida.

A USP não é uma maravilha, mas é a melhor universidade que temos. Alguém precisa sair em sua defesa.

Folha de São Paulo.
05.07.09.
Postado por:
Rosa Maria D.Souza Dias