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UFSC: salários confiscados

Alai Garcia Diniz

ACÓRDÃO? Pela ordem, acordem!

Como Joseph K. preso numa certa manhã repentinamente...me vejo de novo numa cilada. Em 2008, pensava que vivia num país que possuía uma constituição jurídica, uma democracia que protegesse direitos inalienáveis e com leis em vigor até perceber que 26% do meu salário foi extirpado.
Os 1883 professores agiram de má-fé pleiteando uma inflação de 26% que havia sido negada durante o Plano Collor e que muitas outras categorias como, por exemplo, a dos magistrados incorporaram em seus salários?
Depois do aviltamento salarial contínuo e da falta de reajustes, ao receber esse montante como rubrica por 18 anos, que delito foi cometido por mim?
Virei protagonista de uma ficção como Joseph K. e devo pensar e agir como se fosse uma brincadeira de mau gosto dos colegas do banco e representá-la passivamente até o final?
Os guardas que queriam levar Joseph K. só cumpriam a lei. A mesma desculpa que os responsáveis pelas câmeras de gás deram ao acioná-las para exterminar os judeus na II Guerra Mundial...meros subalternos. Nesse nosso processo da URP parece haver um sem-número de senhores que apenas cumprem ordens emanadas do alto. Como na obra de Kafka há os que cumprem um papel puramente acessório no caso e só deliberam a partir desse papel a cada passo... Agora também nos aconselham como a K. a não fazer alarido dessa inocência porque isso prejudicaria a impressão dos demais que nos julgariam...Discreção lhe recomendam. Discreção? Logo eu que fui moldada pelo ato de gritar? Um processo que se estende kafkianamente depois do julgamento que deu ganho a nós em 1990 e manda incorporar os ganhos em setembro de 1994 e vira matéria de doido em 2001, depois de cinco anos de decisão e novamente em 2006 e agora retiram a rubrica sem mais nem menos?
Da primeira vez que os cães correram atrás de mim, eu sabia que eram ferozes e me rasgariam as vestes, me tapariam a boca de mordidas e me arrastariam para o terreno deles convertendo-me em presa e fazendo de mim o que quisessem ...
Provei daquela força, me descabelei mas criei dentro de mim um uivo e esse meu desassossego que não cessa, enquanto estiver viva e me assaltarem naquilo que julgo ser um direito meu.
Meu crime? Dizer em sala de aula que Vladimir Herzog havia sido morto na prisão e que as autoridades mentiam ao afirmar que era suicídio... Alguma dignidade perdura nesse orgulho contra o trauma e essa desconfiança na Justiça para o resto dos meus dias. Mas nem por isso virei bandida!
Não, não me mataram em 1975, era só "áreas próximas", mesmo no DOPS durante 36 dias. Perdi meu emprego de professora do Estado de São Paulo cuja alegação foi de " justa causa"...Faltara mais de 30 dias. O Estado me prende, me esconde, me guarda pra me destituir. Aos 26 anos de idade descobri que a justiça era uma pândega!
Em 1975 minha juventude exigia que eu fosse do contra pra desenvolver uma consciência de cidadania . Foi ingenuidade contar a meus alunos adolescentes que o jornalista não poderia suicidar-se porque não tinha cinto... arma do enforcamento? Claro! Quem não faz erros na vida? Mas aquela falta de jeito no direito de dizer a verdade, colocava meu corpo na fila da vida nua.
Em regime de exceção, muita gente morre por picuinha, às vezes por causa desse desejo insano de contrariar que o jovem leva no sangue ... rebeldia ...Isso foi daquela vez e traumatizou.
O entrevero e o cuspe contra aqueles cães em 1975 deixaram rastros e me moldaram para enfrentar a violência. O auto-exílio me propôs um rumo na vida com essa marca que, se não é possível esquecer, também não procuro alardear.
Agora de novo voltam a me rodear com injustiça. Não me torturam diretamente, mas extirpam um quarto do meu salário depois de 18 anos e justo sob a batuta de um governo que ajudei a se criar e a se reeleger?
Querem me dar lições de civilidade na minha idade? Querem que eu não exploda por confiscarem mais de um quarto do salário recebido todo durante quase 20 anos? Não precisaria ser dirigente sindical pra reagir, não é, Senhor Presidente?
Que lei é essa? Como faço com as dívidas que assumi pra construir minha casa? Com o carro que ainda pago? Com o plano de saúde para cinco pessoas sob minha proteção? filhos; neta? !883 professores da UFSC perdem uma parte do salário ( a rubrica da inflação usurpada no Plano Collor) só com uma canetada da alta autoridade e aceita localmente pelo reitor em exercício...algo tão concreto que desestrutura meu cotidiano e devo ser discreta?
Entre petições, requerimentos, ofícios, sentenças e liminares, chego no limite de minha compreensão e se os acórdãos me incriminam e os dossiês me asseguram o direito de reclamar como uma das 1883 rés ( ou rês?) insisto em que ouçam também as vozes dos acusados, doutores que já ajudaram a formar gerações inteiras de engenheiros, médicos, professores, advogados, enfermeiros, pedagogos e hoje, no conjunto de salários de servidores públicos ocupam o octogésimo lugar, equiparando-se a servidores com ensino médio. Nada contra essas categorias, mas o professor universitário hoje tem condições de ter computador decente, telefone fixo, internet em casa, ir a congressos internacionais, base de suas ferramentas diárias de aprimoramento???
Não possuo cartão corporativo, preciso do salário para sobreviver! E não quero chegar ao final dessa ficção, consciente de que o que acontece com as pessoas ativas cujo trabalho só ocupa o cérebro é que o desabafo é pura inflamação...
Ou então, como K. ter uma faca enterrada no coração e revolvida duas vezes e observar o desenlace como um cão!

Alai Garcia Diniz (Professora da UFSC, Usurpada e Doutora, Associada I DE, coordenadora do novo curso de Graduação em Artes Cênicas, atualmente orientando 5 teses de Doutorado, 2 de mestrado, 2 de PIBIC entre outras atividades).